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“Crescimento de 2018 será inercial”, diz presidente da Fieb



O cenário econômico nacional e baiano após a condenação do ex-presidente Lula, em segunda instância e a reação ao veto presidencial ao Refis para micro e pequenas empresas são alguns dos temas de entrevista exclusiva com o presidente da Fieb, Ricardo Alban, que ainda falou sobre os planos da entidade para a diversificação da matriz industrial do estado.

Como deve se comportar a economia, agora após a condenação, em segunda instância, do ex-presidente Lula, além de todo cenário político ainda indefinido para 2018?

Independentemente de posicionamentos políticos, realmente, é a primeira vez, em momentos democráticos, que estamos há oito meses das eleições e não se tem a mínima ideia de quem serão realmente os candidatos presidenciáveis mais viáveis. É um cenário que, seguramente, não ajuda ninguém planejar e, muito menos, executar. O que indica que muitas das decisões de investimento só deverão ocorrer a partir de meados do segundo semestre, com uma melhor visualização do cenário político. Temos uma tendência de extrema direita, uma de esquerda e várias de centro e, como o país está vindo de um sofrimento político muito estressante, essa situação acaba sendo angustiante. Se não fosse isso e, obviamente a ressaca da crise econômica, certamente, nós já teríamos expectativa de resultados bem melhores que a previsão de 1,9% de expectativa de crescimento da economia brasileira divulgada em Davos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) – o que ainda está abaixo da média dos países emergentes. Portanto, o crescimento que vejo para 2018 é muito mais oriundo de uma inércia do pós-crise do que realmente de um verdadeiro projeto de desenvolvimento econômico. No nosso caso, por exemplo, não há um projeto de desenvolvimento industrial, uma política de desenvolvimento industrial claramente definida, dentre uma série de outras políticas desenvolvimentistas que se faz necessária.

Então, como as entidades industriais, como a Fieb, devem motivar a indústria agora em 2018?

A indústria é sempre o último setor a responder em termos de ajustes à uma crise, por conta de sua mão de obra especializada e, obviamente, tirando o setor da construção civil, é a última a responder também, porque precisa planejar, não podendo, simplesmente, fazer um movimento de ajuste. o que pode, por exemplo, ser mais fácil para o comércio. Então, somos afetados, principalmente, porque essa inércia de crescimento que me refiro ainda não é generalizada já que é preciso, essencialmente para o setor, crescer a massa salarial para que o poder aquisitivo cresça junto e afete o consumo de bens duráveis e semiduráveis. Fora isso, há a questão dos investimentos em infraestrutura, também essencial para a movimentação direta e indiretamente da indústria. Temos aqui na Bahia, por exemplo, o caso do projeto da construção da Ponte Salvador-Itaparica que teria um alto impacto em termos de empregabilidade e de recursos circulando na economia, assim como a retomada de projetos, como da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e do Porto de Ilhéus, no sul do estado, e Aratu, aqui na Baía de Todos os Santos, entre outros. Mas temos ainda, no caso da Bahia, a questão da necessidade de descentralização industrial, já que hoje temos a Refinaria Landulfo Alves (Rlam), por exemplo, respondendo por 29% de toda a produção industrial de transformação do estado. E, até novembro, a Rlam havia tido uma queda de produção de 10,4%, contribuindo, significativamente, entre outros fatores, para o desempenho ruim da economia baiana verificado durante todo o ano passado, nos colando na vice-lanterna entre os estados brasileiros, ficando à frente apenas do Pará, estado que tem já tradicionalmente pouca expressividade industrial. Então, dentro dessa conjuntura, e até porque estamos vindo de uma situação de muita retração em 2017, talvez em 2018 o revés seja verdadeiro, pois estamos vindo de uma base já afetada e é difícil termos resultados ainda mais negativos.
A Bahia está bem servida, com dois candidatos com bom histórico de resultados

Ricardo Alban, presidente da Fieb

E em relação à política local, há alguma perspectiva para as eleições que possa vir a ser mais favorável para a economia baiana?

Não temos como praxe nos posicionar oficialmente, como entidade, mas, como cidadão, o que vejo é que a Bahia está bem servida, tendo hoje dois candidatos que polarizam a disputa, sendo que ambos têm bom histórico de gestão. Na Bahia, ainda temos também muito forte a questão de partidos que costumam, muitas vezes, não seguir posicionamentos adotados nacionalmente. O que sinto na política é que falta a ideologia, princípios ideológicos puros, que não precisam ser radicais, mas, sim, coerentes de A a Z. Mas, no caso da Bahia, acho que temos uma situação privilegiada, com bons nomes que mostram uma experiência de gestão que deram resultados, com importantes ações, seja de um lado, seja de outro, a exemplo da construção de dois centros de convenções, ambos necessários para incrementar o setor de turismo, só para citar um exemplo, assim como o caso do metrô-BRT-VLT. Essa disputa política local acaba estimulando que os investimentos aconteçam. E só se gera emprego crescendo, dando poder aquisitivo para as pessoas, movimentando a economia, num círculo virtuoso, que também estimula a indústria. Mas é também importante frisar que as gestões não devem buscar recursos apenas com uma política fiscal e tributária, mas que também há outro dever de casa que deve ser feito. Ou seja: não basta promover uma carga tributária alta, até porque é como matar a galinha dos ovos de ouro, pois quem gera riqueza é o setor produtivo.
Uma empresa hoje deixa de pagar imposto, não por má índole, mas por necessidade

Ricardo Alban, presidente da Fieb

Nacionalmente, tocando na questão tributária, a Fieb está também pressionando o Congresso para derrubar o veto do presidente Michel Temer à participação das micro e pequenas empresas no novo Refis. Como está esse movimento?

O entendimento de que o Refis é um benefício ao mau pagador é equivocado, sobretudo quando vivemos uma economia tão estressante que deixa as empresas bastante vulneráveis. Mas, mais do que isso, e eu não tenho dúvidas em afirmar: hoje, se uma empresa deixa de pagar imposto, seguramente, a maioria não é por uma questão de índole e, sim, por necessidade. Afinal, quem gosta de ter problema no futuro? Então, numa crise dessas, que nem os governos estaduais, municipais e o governo federal tiveram condições de pagar suas contas, se é uma verdade para o Estado, porque não pode ser entendido como verdade para as empresas? Segundo ponto: se os estados tiveram tantas benesses para equacionar suas situações financeiras – e não foi a primeira vez, sendo que boa parte por má gestão, diferentemente do caso das empresas que é mais fruto de situações de mercado -, por que o refinanciamento não pode ser visto como uma necessidade para as empresas, seja ela grande, pequena ou média? Não podemos esquecer ainda que as penalidades para as empresas que não pagam impostos são absurdas, muitas com caráter confiscatório, da época de inflação elevada, com multas de 100% quando se fala em inflação de 5% a 6%. Ou seja: não é nenhuma benesse, ao contrário, promover o Refis para todas as empresas, independentemente do tamanho. Logo, o veto não faz sentido nenhum e, por isso, tenho a plena convicção de que será derrubado, até pelo papel das micro e pequenas empresas como grandes geradoras de emprego. Então, estamos verificando junto à nossa bancada federal e tudo indica que será mesmo derrubado, com acordo, sem maiores objeções pelo próprio governo.

Institucionalmente, o senhor defende as empresas até nos escândalos de corrupção investigados pela Lava Jato…

Infelizmente, corrupção tem no mundo inteiro, o que não quer dizer que seja aceitável e que não deva ser punida. E, no caso da Lava Jato, que é uma iniciativa importante e necessária, creio que a operação só pecou ao não preservar as empresas, como instituições, porque são patrimônio da sociedade brasileira, e a Bahia sofreu muito, com várias empresas envolvidas nesse processo. Temos o caso ocorrido há cerca de oito meses, por exemplo, da carta convite para as obras da usina nuclear de Angra 3 e que a Odebrecht, mesmo depois de ter assinado o acordo de delação e compliance, não foi convidada e grande parte das empresas estrangeiras que participaram também respondiam a problemas de compliance onde atuam. Creio que não podemos fazer das nossas empresas de bode expiatório. E nós só podemos e devemos advogar em prol das instituições. A Odebrecht está tomando ações e atitudes de quem está querendo realmente se reposicionar como grande empresa. Por conta da crise, quantos empregos baianos deixaram de existir? Só a Odebrecht, o case mais emblemático de um grande grupo baiano, saiu de 170 mil funcionários para 70 mil, se não me engano. Não tirando o mérito da operação, mas quanta mão de obra qualificada, quanta inteligência foi dispensada, por conta desse momento? Infelizmente, boa parte desse potencial de conhecimento pode terminar indo para empresas estrangeiras, nada contra que elas venham, mas é que nós também precisamos preservar as nossas.
A indústria é sempre o último setor a responder com ajustes diante de uma crise

Ricardo Alban, presidente da Fieb

Reeleito, o senhor toma posse em abril. Esse marco traz alguma mudança para o Sistema Fieb?

Sim, vamos lançar um projeto de futuro que estamos batizando de Sistema Fieb 4.0, que é um conceito industrial interativo de inteligência artificial, e que estamos implantando em todos os nossos processos internos, num amplo projeto que vamos apresentar no dia 6 de abril, quando teremos três eventos sediados no Cimatec de Pituaçu: além da posse da nova gestão, os 70 anos da Fieb e os 70 anos do Sesi. Será um marco de um novo momento que queremos para a indústria baiana, pautado na pesquisa e desenvolvimento, alta tecnologia e, sobretudo, com foco na descentralização da matriz industrial, além, claro, da educação. Hoje, o Cimatec, por exemplo, já pelo quinto ano consecutivo, destaca-se como a melhor escola de engenharia do Norte e Nordeste, e nossa meta é ficar entre as duas ou três melhores do Brasil. E, para isso e todos os propósitos já citados, temos um expecional time no Sistema Fieb que está empenhado em fazer.

Fonte:atarde

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